Chega às 18h40, quase sempre a uma sexta-feira. Uma linha só, do dono da obra, e diz que a intervenção do dia 12 não consta. Abres a pasta, tens a fatura, tens a folha de obra assinada pelo teu técnico, tens até o histórico de GPS da carrinha porque o localizador o guarda. Parece que chega. Depois o advogado faz a pergunta que não estavas à espera, que é quem assinou aquela folha, e no momento em que respondes que foi o teu próprio funcionário, a pasta fica bem mais leve.
Ninguém te explica isto no dia em que abres actividade, e devia estar afixado por cima da secretária. Quem reclama o pagamento tem o ónus de provar que a prestação foi executada e quanto valia. Uma fatura que emitiste tu não prova isso. É um papel que escreveste sobre o teu próprio trabalho, e a outra parte sabe-o bem. O que decide estes casos é o que existia na obra enquanto se trabalhava, não o que juntaste depois para te defenderes.
Em Portugal esse momento tem nome, e o nome é verificação e aceitação da obra. O Código Civil trata dele nos artigos 1218.º e 1219.º, e a mecânica é dura para quem não presta atenção, porque a obra considera-se aceite se o dono não a examinar no prazo devido ou não comunicar o resultado, e a aceitação sem reserva de defeitos que fossem conhecidos faz cair a responsabilidade do empreiteiro por esses defeitos. Antes disso és tu que tens de demonstrar o que fizeste. Depois, o terreno muda de lado. Um único acto desloca todo o peso do processo, e a maioria das empresas trata-o como uma formalidade de fecho em vez do encontro mais importante de toda a empreitada.
Queres que o teu cliente confirme a intervenção sozinho, no próprio dia, em vez de andares atrás dele ao fim do mês por causa de uma assinatura?
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Abre o teu testeOnde é que dói mais
Nem todos os ofícios correm o mesmo risco, e a diferença não está na qualidade do trabalho. Está em onde o trabalho acontece. Fabrica uma peça na oficina e a peça existe, pode olhar-se para ela. Quando a prestação consiste em ter passado por um sítio que não é teu, a uma hora que ninguém vai conseguir reconstituir depois, o trabalho evapora-se no segundo em que o teu técnico fecha o portão atrás de si.
A construção está à cabeça, e os números já o dizem sem rodeios. A TrueScreen, plataforma de certificação de prova digital com valor legal, registou nos últimos meses um aumento de 75 por cento nos pedidos vindos do sector da construção, e não é moda. A Association of Certified Fraud Examiners aponta um crescimento de 60 por cento dos casos de fraude no sector nos últimos anos, enquanto o equipamento informático na construção continua atrás do resto da economia. Os litígios sobem e as ferramentas para te defenderes chegam tarde, precisamente onde fariam mais falta.
Logo a seguir vêm a manutenção e as instalações técnicas, por uma razão estrutural. O técnico trabalha dentro das instalações do cliente, muitas vezes sem ninguém a supervisionar, em chamadas que abrem e fecham na mesma manhã. A folha de obra preenche-a ele, de pé, em cima do capô. Depois há os contratos de serviços, as limpezas em hospitais e escolas, a segurança privada, a logística, onde o dono da obra é quase sempre maior do que tu e o caderno de encargos fixa turnos e presenças que alguém há-de pedir-te para comprovar. E há os pequenos que trabalham para administrações de condomínio, os mais desprotegidos de todos, porque aí o contrato é muitas vezes uma conversa de mensagens e a prova de ter trabalhado mora dentro de um telemóvel.
O verdadeiro campo de batalha é a aceitação
Há aqui uma coisa que joga a teu favor, e vale a pena saber. A partir do momento em que a obra foi aceite, mesmo tacitamente pelo comportamento do dono, a carga muda de lado. Quem tem a obra acabada em seu poder é quem tem de demonstrar o que está mal, e um cliente que manda fazer uma peritagem e detalha os defeitos está a admitir, sem o dizer, que o trabalho foi executado. Não se pode sustentar a sério que nada foi feito e pedir na mesma frase que um perito venha examiná-lo.










